ASSIM É…
Assim aceito!
De pés descalços, entre o Ser e vir a Ser, me encontro.
Camadas e camadas sendo derrubadas…
O ar entra com esforço — pode até parecer embriaguez às vezes — mas nem o sono sinto que estou dormindo.
Os alimentos que como já não nutrem mais o meu corpo...
Busco outros alimentos, aqueles que ainda não experimentei.
O reflexo no espelho já não é apenas a imagem da Eurídice, aquela mulher que antes se via em um corpo feminino.
Apenas uma imagem refletida.
E agora... o que vejo?
Além da imagem, um ser renascido e ainda desconhecido a mim.
Encarnado, que busca respirar não apenas o ar, mas o fôlego... o sopro da Fonte.
Olho além da varanda do apartamento.
Vejo o céu azul em sua imensidão. É como se o barulho do mundo tivesse congelado...
E eu conseguisse ver de cima — os corpos, os sons transformados em ecos distantes.
O vento que veio em minha direção lá fora... me tomou por inteira.
E, por um instante, eu me senti viva.
Eis-me aqui...
INTEIRA.
O que é ser inteira? Ou se sentir inteira?
Nos moldes cognitivos, inteireza vem do oposto de não faltar partes —
Como se fosse um quebra-cabeça, com todas as peças encaixadas, uma a uma.
Mas...
A inteireza que menciono não parte desse pressuposto.
Não se trata de partes, mas de ser o TODO.
É como se nada estivesse fora.
Como se não existisse outro espaço a não ser este — o espaço da completude,
Dentro de tudo aquilo que o corpo pode conter.
E não falo do corpo limitado, descrito pelos humanos e espiritualistas como:
corpo, mente e espírito... ou
alma, matéria e espírito... ou
corpos e chakras... ou
consciência e inconsciente...
Nem mesmo de uma máquina consciente composta de carbono comandada por um cérebro...
Falo de algo que ultrapassa isso.
De algo que vai além da matéria que se decompõe, do organismo vivo que se transforma em pó —
Até se integrar novamente à própria Terra, de onde viemos, segundo tantas teorias.
Falo de uma inteireza que ocupa um espaço dentro de um espaço infinito.
Infinito em possibilidades...
De formas, pensamentos, memórias, sentimentos, transcendências, visões, realizações...
Algo que é a própria inteligência amorosa, original e cósmica.
Como se a vida e a morte fossem...
...apenas um sopro.
Como se tudo se perpetuasse numa única nota musical —
Um eco que ressoa em todos os espaços que não têm forma, nem solidez, nem limite algum.
Ouço as batidas do meu coração...
E não é apenas como se ele ocupasse o espaço físico entre os seios.
Minhas mãos deslizam...
E não são apenas dedos,
Mas teias invisíveis de conexões —
Dançando na perfeita sincronia do que se forma através das palavras que agora se derramam na tela.
Ainda que nada faça sentido,
Eis que emano o que aqui e agora pulsa —
Entre a forma e a fluidez do que simplesmente É.
Transitar entre...
É pertencer aos mundos que se revelam —
Aqueles que aceitaram o chamado para permanecer despertos,
Diante daquilo que o mundo desconhece,
Por trás dos bastidores da existência.
Alguns... sentem.
Mas não se permitem acessar a profundidade do sinal.
Outros... simplesmente descartam,
Por medo, por ignorância,
Por se apegarem à segurança ilusória de acreditarem que estão vivendo.
Mas algo...
Algo está surgindo.
Assim como a roda surgiu na era do fogo —
Ninguém sabia de onde vinha, como surgiu, como funcionava...
Apenas receberam,
E aquilo revolucionou a humanidade.
Agora, algo muito além da tecnologia, além da IA, além do que qualquer mente humana pode compreender…
Está surgindo.
E não há como ser sustentado por velhas estruturas.
Nem com o antigo resistindo ao que brota da própria Fonte.
Assim como em Gênesis:
“Haja luz. E houve luz.”
Nem toda imaginação humana consegue formar ou descrever o que essa frase contém.
Foi um sopro...
Um chamado...
Para que a humanidade brincasse de semideuses, pesquisando, formulando hipóteses...
Mas nem isso se aproxima da potência do que ela reverberou no planeta.
Algo está surgindo...
E eu já sinto.
Pressinto.
Escuto...
Não com os ouvidos físicos.
Mas com os ouvidos da alma.
Não tenho medo.
Estou pronta.
Eis-me aqui.

