FLORESCER 🌻
Do botão à flor…
Fim de um tempo que insiste em permanecer, mas que já não tem mais espaço para ser acolhido.
Assim, na contemplação da minha orquídea, desde o surgimento do novo caule até os pequenos botões que lentamente se abrem em flor... Como é uma orquídea, esperamos suas flores em beleza — mas é um processo. E nem imaginamos como se dá toda essa beleza, pois ela é invisível aos olhos.
Assim tem sido o meu processo de florescer em um novo ciclo de renascimento. Ou posso dizer: nascimento.
Porque nunca estive nesse estado ou lugar atemporal dentro de mim.
É como se a vida pedisse calma. Silêncio embalado. Escuta da alma.
O corpo pede calor, ser aquecido, cuidado, nutrição.
Eu o escuto, mas ainda não sei como nutri-lo totalmente.
Me acomodo em mim.
Depois de muitos anos, o corpo pede um corpo sobre o meu, ao meu lado, a me ouvir e caminhar junto.
Sinto que fui rígida demais ao colocar metas como se tudo estivesse numa lista enumerada.
Agora, a vida chega e joga tudo para o alto. E me diz: nada de lista, roteiro, mapa, ensaio, cópia, repetição... ou mesmo alguma ideia do que está pronto e vindo ao meu encontro.
- Agora, Eurídice! É sem controle!
Fiquei um tempo longe das telas do YouTube e Netflix, mas ontem me peguei assistindo a uma daquelas séries “mamão com açúcar”, apenas para me deliciar na leveza.
Por acaso — como tudo na minha vida, me deparei com uma mulher que teve que recomeçar do zero após a morte do marido e a falência do restaurante que ele lhe deixou.
E ela, em todo embaraço com os homens, aos poucos enfrentava os medos, os acordos velados, as lágrimas, a insegurança e a autocobrança... até se deparar com um novo amor.
A vida está me chamando a experimentar um novo movimento, a me entregar, mesmo sem saber — apenas viver.
Talvez, me deparar com o prazer antes mesmo de me comprometer com um novo trabalho ou carreira, algo que sempre esteve em primeiro lugar na minha lista... enquanto o relacionamento ficava por último.
Ontem, num banho de ervas, colhidas no jardim do condomínio lavanda e camomila, ao jogá-las sobre o corpo, senti a vibração e me vi em meio a um campo de girassóis, com um pôr do sol ao fundo.
Enquanto me enxugava, me veio a imagem da carta do Sol, Arcano XIX, e a frase espontânea:
EU ME PERMITO!
PERMITO SER ORGANIZADA OU REORGANIZADA PELA FONTE PRIMORDIAL.
Durante a madrugada, despertei…
Não sabia se estava dormindo, sonhando ou em transe.
Mas o cenário me trouxe alegria.
Enquanto escrevo esta carta, o visor do celular marca 19:19 — a ressonância da carta XIX, O Sol, mais uma vez. Como se dissesse:
“Tudo está pronto.
Basta você se abrir para receber.”
É uma mistura de maturidade com ingenuidade.
Medo e alegria.
Compromisso e aventura.
Descanso e prazer.
Amor e entrega comigo mesma.
A chegada de Benício em minha vida é mais do que um renovo. É o novo vestido de avó, com graça e beleza. Mas também há outras novidades se mostrando no meu caminho.
E o tempo que jaz é aquele da responsabilidade rígida, da autocobrança, da falta, do mesmo de sempre: derrota e fracasso.
Como se eu não quisesse enxergar o que está diante dos meus olhos.
Mas a metafísica e a medicina germânica explicam perfeitamente como o corpo guarda a memória da dor, da escassez, da sobrevivência, do medo e da luta.
Após anos sem usar óculos — apenas astigmatismo leve até os 40 —, veio a miopia. E após o divórcio, os graus aumentaram. Isso mostra a dificuldade de ver além.
Talvez porque o além seja tão novo que me assusta. Nesta encarnação, ainda não experimentei a leveza.
O receber sem esforço.
O amor divino na troca sincera.
O aconchego de um lar que sonho desde os 16 anos.
E o ofício que nutre meu ser, preenchendo não só a vida material, mas a existência por inteiro.
Estou diante disso tudo.
Sinto.
Tenho chorado muito ultimamente, sem motivo aparente (além claro da preocupação com Benício no hospital novamente)
É como se algo novo se aproximasse com força, potência, conexão...
Presença divina.
Como uma faísca atômica de cores e beleza.
Tem vindo uma lembrança…
Uma promessa?
Uma profecia?
Antes de falecer, minha bisavó (de quem carrego o nome) fez a mais bela declaração de amor, poucos dias antes de sua partida.
Desde pequena fui muito exigida, não só pela vida, mas por ela também.
Hoje vejo que foi necessário.
A princípio, defesa para a sobrevivência. Depois, percebo: parte da minha existência neste planeta.
Esperei uma vida toda por um elogio sincero.
E assim se cumpriu.
Ela, com lágrimas nos olhos, segurando minhas mãos, disse:
— “Agradeço por sua existência na minha vida. Não te pari, mas te gestei em meu ventre por nove meses como filha querida. Você não imagina o que Deus reserva pra você. Algo inimaginável. A palavra felicidade não consegue conter.”
Eu chorava, mas desacreditava.
Havia muito sofrimento em mim , do casamento, do nascimento prematuro do meu filho do meio e da perda dela que já dava sinais e da minha mãe, dois meses antes.
Como pensar em felicidade diante do luto das duas mulheres mais importantes da minha vida?
Muitos anos se passaram, e meu avô confirmou, com outras palavras:
“Filha, você carrega uma luz tão grande que, se quiser, pode ir até a Lua quantas vezes desejar. Você é uma mulher perfeita. Guarde-se para alguém que te mereça. Deus guardou para você os melhores dias da sua vida em alegria e amor.”
Desde que comecei a canalizar mensagens de um Mestre Ascensionado quase três anos seguidos, todos os dias , foram muitos cadernos escritos, com revelações sobre existências passadas e a atual.
E o que fiz durante todos esses anos?
Neguei!
Duvidei!
Chorei!
Desacreditei!
Agora, a vida me desafia novamente a aceitar completamente minha vida terrena.
Reconhecer que precisei passar por tudo.
Chegar até aqui com aprendizado, sabedoria, entrega e acima de tudo: rendição.
Rendição à vida.
Rendição ao que me foi entregue antes mesmo de eu chegar aqui.
Porque eu aceitei estar aqui.
Percebo: há fins e recomeços.
Há sentido além do que imaginamos.
É viver na simplicidade do ser.
E reconhecer: NADA, absolutamente NADA está fora d'Ele, da Fonte Primordial.
Cheguei a gritar e chorar perguntando ao Universo:
— “Pra que tanta busca?
Pela verdade?
Que verdade?”
E tudo me levou a reconhecer que nada está fora.
Toda magia, alquimia e milagre acontecem dentro.
No lar, no retorno à Fonte.
Lugar seguro, acalorado, acolhedor.
Fonte e rio.
Morada única.
Unidade.
Existência.
Minha palavras parecem ondas, buscando ser farol em mim.
Mas agora já encontraram a terra onde derramar.
Sou embalada entre o contrair e expandir,
até que a onda encontre a areia
e se misture com ela: sal, água, corpo, na terra que me habita
e agora decide fincar os pés para caminhar diante do Sol que resplandece na alvorada.
Me abro para receber o fôlego da vida
que traz o movimento entre ser e existir —
sem pressa,
nas ondas,
no silêncio,
no embalo,
até me encarar em mim.

