MOVIMENTO
"O movimento é permanente e aparente. E o impermanente, constante — como a própria vida em si mesma."
Já nascemos em movimento!
Enquanto bebê, a dor que nós, mulheres, sentimos nos traz a ideia de que a força é nossa e tudo depende apenas de nós, da nossa disposição. Mero engano! Afinal, o bebê também é protagonista do seu próprio nascimento.
Tudo é movimento, dentro e fora de nós.
Vivemos numa sociedade que, nessa era virtual, nos impõe uma certa cobrança para sermos tão produtivos e ágeis quanto a velocidade da internet. Isso virou performance.
O descanso, a pausa e a presença viraram artigos de luxo para quem se sente merecedor.
O movimento, ou a maior parte dele, se dá de forma invisível aos nossos olhos, pois toda transformação, mudança e cura se consuma no sutil.
Ao longo da travessia, me vi como uma mulher fazedora. E , para a sociedade, útil e produtiva. Mas isso me levou ao desgaste emocional e físico e, principalmente, à desconexão comigo mesma.
A alma gritou tanto que o corpo sangrou, e a doença se instalou. Um chamado a desacelerar, mudar de rota.
Enfrentei os piores anos da minha vida!
A dor foi um pedido de socorro da alma que não se ouviu.
Somente algo mais forte do que eu me pararia. E, ainda assim, me deparei com a resistência. Pensei: se não me movia, não existia. Ou seja, cresci com a medida exata de valor por trás da produção , algo parecido ao pensamento cartesiano de Descartes.
E o movimento também nos ensina que a recuperação de alguma doença, como a cicatrização de uma cirurgia, se dá no repouso.
Só se percebe entre as vistas quando a ferida criou casca e caiu, deixando apenas visível o que já foi ferida aberta.
Assim é a natureza e tudo que, aos nossos olhos, é beleza.
Ela também passou pelo seu movimento de semeadura no solo escuro. Foi semente, caule e as primeiras folhas fora do solo, até que virasse uma árvore frondosa e imponente.
E até mesmo no momento em que o mundo parou , às margens de uma doença desconhecida como a COVID , foi só a impressão de que a vida parou.
Apenas porque, naquela época, o chamado foi para nos recolhermos do movimento falso que a sociedade nos cobra e que adoece ao dar vida às coisas que geram lucro à economia mundial.
Mas, no fundo, o chamado desestabilizou a maior parte das pessoas que não sabiam gerir o “não movimento” dentro delas e ao redor de si mesmas.
A vida é fluidez por si só. Assim como um rio que nasce frondoso, encorpado e cheio de vida, ele é o próprio mapa de si mesmo.
Ninguém lhe ensina o percurso. Ele é o próprio percurso.
E, mesmo que no caminho haja desvios, ele sabe onde desaguar.
Assim somos nós.
Mas esquecemos que também somos rio, porque desaprendemos diante da vida acelerada , que a respiração também é o maior movimento da vida e o mais sagrado.
Respiramos ao acordar,
quando a vida cobrar,
quando estiver difícil,
quando não vemos saída…
Respirar, pois você é movimento!

