SER CORPO
Estar no corpo
Essa história com o corpo não aconteceu como eu bem planejava quando nasci em carne e osso.
Ela começa agora, quando sinto pela primeira vez no corpo.
Mas que história é essa de não se reconhecer em corpo, sendo ele a própria expressão da existência?
A resposta poderia vir simples, quando imaginamos o corpo como esqueleto, massa corpórea, pele e partes que o compõem da cabeça aos pés.
Também, numa visão mais aprofundada, há um grande sistema que interage entre si — composto por água, sangue que circula por todo ele e órgãos que nos trazem a ideia de tudo o que realizamos a partir dele.
Pelo lado artístico, o corpo seria uma grande obra de arte, esculpida nos mínimos detalhes, trazendo a ideia de beleza na perfeição.
Por outro lado na espiritualidade, já o contemplei como um Universo simbólico, guardião dos mistérios que o compõem — das memórias que carrega desde sua formação até a descoberta de cada parte, como faz o bebê ao sugar os seios fartos de sua mãe e sentir afeto através da sucção e depois ao descobrir as mãos, a boca... e por aí segue a grande montanha-russa de sentir o corpo.
Mas a relação com o corpo conta mais do que apenas a presença material no mundo.
Por ele, a linguagem é transmitida através de sensações, dores e incômodos — perfeita expressão do Universo invisível e do inconsciente que o habita.
Além da voz do divino, que busca expansão através dele.
E quando o corpo fala através da dor e nos entregamos a ela, buscando o alívio imediato, e não a conexão através dela?
Esse é o caminho comum e mais rápido para lidar com a dor, pois assim fomos ensinados: que um corpo saudável é sem dor.
Mas tenho aprendido que, ao nos conectarmos com ele, para além da dor, descobrimos um universo vivo e pulsante dentro de nós, pronto a nos mostrar um caminho de rendição e cura — não apenas física, mas da alma.
Meu corpo conta uma história não muito feliz quando percebe, nas minhas memórias a narrativa do abuso e da violência: a invasão alheia no corpo.
Essa memória já não vem seguida de dor agora, apenas como um sopro que passa e se vai, na leveza de algo que um dia foi e não existe mais, nem o vínculo com o sofrimento que causou.
Outra lembrança está na dança: um corpo que se move e se expressa na liberdade de ser.
E, por boa parte da vida a busca e o culto pelo corpo perfeito — através da atividade física e do esporte. Disciplina, foco, nutrição, suor até o limite.
Ainda na experiência de ser corpo, o prazer sexual foi, por muito tempo, apenas alimento para a fome da carne e do desejo — não para além do toque, do abraço apertado, dos olhos nos olhos.
Apenas satisfação carnal, poder e domínio sobre o outro.
Fuga e submissão.
Entregar-se ao vício e à luxúria do prazer pelo prazer.
E, num extremo oposto e complementar veio o recolhimento e o celibato espontâneo, que me fez voltar para dentro.
Não mais apenas me deleitar na carne, nem encobrir o corpo com vestes elegantes e caras para sentir o valor através do que o cobre — e negando ser corpo.
Nesse caminho de volta a mim — nele e através dele — a conversa foi se tornando mais profunda, intensa e ao mesmo tempo dolorosa.
Vieram à tona camadas de proteção e defesa que tornavam esse corpo pesado, rígido, numa carcaça que não queria mais ser apenas desejo alheio e masculino.
Não queria mais servir ao olhar que consome e satisfaz o prazer carnal de homens e de certas mulheres que queriam estar vestidas de mim.
E sim, pela permissão velada de mim mesma, nasceu o compromisso de retirar os véus da ilusão — de não me ver apenas como carne, peso e muralhas.
Em muitas imersões espirituais, o corpo foi se mostrando com um Sentir que vai além dos cinco sentidos:
um sentir que vibra — e digo “vibração” como um descontrole muscular e postural, algo que sente profundamente sem explicação.
Como no simples ato involuntário do abrir de boca, quando o corpo vibra e relaxa ao mesmo tempo.
Em muitos atendimentos, me foi dito que eu precisava aterrar — pois me viam levitando.
O corpo não estava plasmado na Terra; eu me encontrava mais nos planos sutis do que na matéria.
Nos planos astrais, eu me realizo plenamente.
O trabalho é para além do que entendemos como tecnológico e avançado, os poderes são multidimensionais.
Mas o meu desafio é estar aqui, vivendo como uma ser humana comum.
Muitas vezes eu questionava o Pai:
— Como viver aqui, se acesso planos que já estão em harmonia, onde tudo simplesmente é fluidez e energia?
Nessa linguagem que se fez única entre Eu e o Corpo, comecei a me entregar — primeiro com resistência, depois com aceitação — reconhecendo que tudo vem a partir dele.
E que está tudo bem SENTIR para além dos sentidos físicos, pois isso também sou eu.
Essa é a minha existência terrena e natural de Ser.
No dia da Lua Cheia em Touro, quando o chamado foi SENTIR na matéria, ou seja, reconhecer e ser corpo, me entreguei ao cuidado do corpo numa sessão terapêutica — e SENTI meu corpo pela primeira vez.
Me vi entregue ao prazer nele — mas me surpreendi ao descobrir uma forma de prazer que não se resume às sensações da carne.
Não de forma erótica e sexual apenas, mas a força da respiração.
Enquanto soltava o ar, o corpo era sentido como um todo — sem forma, expandido, leve.
Como se não houvesse mais densidade, nem história, mas apenas energia fluindo nele e através dele.
A princípio, me via como água — contida em mim mesma, sendo eu a própria água.
Louco tentar decodificar o indecifrável.
Sentia o corpo não mais na forma física e limitada, mas numa expansão dentro e fora de mim mesma.
E a frase que ressoou, logo ao terminar a sessão, enquanto eu ainda estava profundamente emocionada, foi:
“Pela primeira vez, eu sinto que EXISTO.”
Esse mantra já havia me vindo antes, num tom de raiva e desabafo, quando eu dizia: “Mesmo que ninguém me reconheça em minhas escolhas, eu me sinto viva pela primeira vez.”
Digo isso porque, por não caber em espaços e formas desenhadas pela sociedade, eu não existia.
Mas agora, existo — encarnada, leve, fluida.
Me reconheço nesse corpo.
Sendo Corpo.
É a primeira vez que SOU CORPO.
Mas para além dele, ainda há a resistência: o medo que tenta contê-lo, trazendo contrações no pescoço e nos ombros — como se o que carrego fosse pesado demais para a leveza que experimentei. Mais uma vez, a contradição: o esforço como caminho para a existência.
Quanta resistência para experienciar o amor na leveza e fluidez do corpo?
Eu me perdoo neste instante em que percebo: na amorosidade comigo mesma — sendo esse corpo leve e fluido — que me permito soltar, num ato de coragem, todo o peso e as amarras que já foram prisão.
Agora sou Liberdade em estado de graça.
Sou Corpo.
Estou no Corpo.
Vivo no Corpo.
Mas não me limito à forma, nem ao espaço.
Sou um Universo infinito habitando um corpo.
Imagem criada por IA

